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Gastronomia por Roberta Sudbrack
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07/04/2008 ..

Trilha sonora...



Todo mundo sabe a ligação que eu tenho com a música “Fly me to the moon”, especialmente quando cantada pela Paula Toller. Ela faz parte de uma fase muito importante na minha vida. Um momento que muito me orgulho ter vivido, feito parte e empenhado todas as minhas forças, profissionais e pessoais, para fazer dele algo único e especial. E foi. Não fosse por isso, não teria causado tanto interesse, para o bem e para o mal. Faz parte. A vida, no fundo, é uma grande arena, onde o bem e o mal, sempre duelarão.

Ainda assim, seja lá quando for, essa mesma vida, se encarregará de colocar os pontos nos “is” e a música certa, na hora certa. Essa em particular eu ouvi no rádio do meu carro, no dia em entrei pela primeira vez no Palácio da Alvorada, para chefiar aquela cozinha. Foi uma emoção única, que eu descrevi assim no meu primeiro livro: “Entrar bem devagar pelo portão olhando tudo, me propiciou um instante inviolável e indestrutível. No carro tocava Fly me to the moon, com a Paula Toller, o que me fez pensar três coisas: a vida tem sempre uma trilha sonora; aquela era a mais bela gravação dessa música que eu já havia escutado e que daquele instante eu jamais esqueceria”. Nunca mais esqueci e mesmo nesses tempos de bravatas covardes e descabidas, ela ainda me emociona como naquele dia.

Outro dia fui ao show de lançamento do último cd da Paula Toller. É claro que fui sonhando com a possiblidade remota dela cantar essa música – já que conhece a história, contada por mim mesma, num ataque de tietismo frenético pouco comum, que tive quando a conheci! – e na fantasia de que isso seria um alento à minha alma romântica, que anda tendo que se esquivar dos tiros dos soldados do mal. Fantasias são emoções desenhadas dentro de nós. Cada um pode e deve colorí-las como bem quiser. Não ofende ninguém, não tira pedaço e não incomoda. Contanto, é claro, que se esteja pronto para lidar com a frustração, se elas por acaso não deixarem o mundo interior e se concretizarem, como comumente é o nosso desejo.

Depois do segundo bis, achei que era esse o caso. Levantei e fui ao banheiro para depois ir embora, já que ainda tinha que correr para o restaurante, pois naquele dia tinha programado as reservas para mais tarde, para poder atender todo mundo. Entro no banheiro, feliz, pois o show foi divino e as minhas fantasias, ainda que quietinhas no meu interior, conseguiram acalentar a minha alma. A arte tem sempre esse poder! Eis que então ouço um acorde familiar e penso: “Acorda Roberta! Vai trabalhar!”. Volto então ao que interessa, mas logo tenho que interromper, pois as fantasias entram para me buscar dentro do banheiro! Saio correndo, abotoando as calças – cena patética! Encontro alguém da produção – que mal conheço – mas que já me agarro e digo, quase histérica: “Eu amo essa música, eu amo essa música!”. Ele me abraça de volta, ao certo pensando: louco a gente não contraria. E me pede para ir ao camarim quando show terminar, porque a Paula ficaria feliz. Explico que não vou poder porque tenho que voar para o restaurante, mas que adoraria que ela fosse para lá depois. Ainda alimentando as fantasias...

Volto para o meu mundo, que é fantasia também, mas não é só minha, essa é de todos os que amorosamente se entregam à ela todas as noites! Depois de algumas horas a Paula chega, me abraça e diz: “E você pensou que eu não iria cantar Fly me to the moon?”. Vou para a cozinha feliz, para cozinhar e continuar acreditando que a vida tem sempre uma trilha sonora, agora, definitivamente!

Até!

08/04/2008 ..

Terça básica...



A gente tem vibrado com essa história ultimamente lá na casinha laranja. É o seguinte, toda terça-feira, além do nosso menu degustação, oferecemos uma opção dentro da filosofia da bistrônomia, ou seja, acesso e qualidade. Essa filosofia vem sendo muito seguida e difundida, principalmente na França hoje em dia. É como se fosse uma parada para uma reflexão, para sacudir a poeira que acabou ficando acumulada debaixo de algumas mesas. Não me entendam mal, eu mais do que ninguém, sei o quanto é difícil e caro trabalhar com o nível máximo de qualidade.

A grande sacada dessa filosofia foi fazer parar para pensar. E quando paramos para pensar um mundo de possibilidades acaba surgindo na nossa frente. No meu caso, eu jamais conseguiria viver sem o ritual, então criei um menu mais curtinho, mas que mantém intacta a filosofia de que a vida precisa de pausas. Mas o grande barato - mesmo que algumas vezes, após fecharmos a ficha técnica se chegue a conclusão de que é um caminho ainda difícil para se percorrer - é assistir a tal possibilidade tomar conta do pedaço. Estudantes, artistas, amantes da gastronomia, amigos e vizinhos invadem a casa e nos enchem de alegria. Qualquer cozinheiro que se preze vibra com a possibilidade.

Possibilidade de fazer feliz. Possibilidade de servir. Possibilidade de sorrir! A gente fica na expectativa, esperando a comanda subir. O menu diário é mais caro, mas a gente sorri com mais vontade quando vê escrito: duas terças-básicas! É um momento de alegria para nós também. Acredito que esse será em muito pouco tempo o caminho para uma gastronomia de mais sonhos também. Sonho com esse dia, de quartas, quintas e sextas-básicas! Estamos trabalhando para isso, porque sonhar nunca custou nada e a gente quer é ser, e fazer feliz!

Até!
09/04/2008 ..

Relacionamentos...



Eu convivo muito com a minha equipe, é uma escolha. Primeiro porque não suportaria não estar todas as noites na cozinha. Isso me alimenta. E depois porque para fazer o tipo de trabalho que fazemos, esse envolvimento se faz mais do que necessário. Sei que os chefs têm maneiras diferentes de interagir com suas equipes. Cada um tem seu jeito, seu gênio e sua disponibilidade de tempo. Sem fazer juízo de valores, cada um sabe onde mete a sua colher.

A minha cozinha é extremamente emocional e absolutamente artesanal, duas características que não me permitem perder essa conexão com as pessoas que trabalham comigo. Estamos diariamente ligados. Sei o que acontece na minha cozinha sem precisar necessariamente estar lá. Basta ligar, fazer duas perguntas ao meu subchef para saber que rumo terá a noite. Ao entrar na cozinha também não preciso de muito para saber determinar o nível de estresse que se fará presente naquela noite. Basta assistir um membro dessa equipe se movimentar. Um movimento mais, ou menos sincronizado, pode levar uma orquestra, um corpo de baile e uma cozinha ao fracasso!

Não é fácil. É uma tarefa exaustiva manter essa conexão. Mas compreensível, afinal, são seres humanos distintos, particulares nas suas essências, repletos de diferentes expectativas e perspectivas. Ainda assim, como membros de um corpo baile, uma orquestra sinfônica ou uma equipe de cozinha, devem estar prontos a superar certos limites e deixar de lado algumas particularidades, na tentativa de respirar sempre na mesma cadência do resto do grupo. Mesmo que a respiração do seu companheiro de bancada te incomode. Essa é a única chance de não sair do tom, seja no palco ou na cozinha.

Até!
11/04/2008 ..

Entre ontem, o hoje e o amanhã...



Primeiro o monitor entrou em transe e ficou verde. Após a visita do técnico, a conclusão foi de que não havia mais saída: muitos anos de convivência, a relação desgastou! Providenciei outro, muito menor, mas muito menor. Pelo menos no corpo, mais magrinho, mais condizente com as demandas estéticas do mundo moderno. Não sei se gosto, é inegável que o campo de visão e a definição são muito melhores, mas ainda não consegui decidir se gosto. Sinto falta do volume do outro. Do vazio que ficou!

Sou uma chef moderna, mas a alma é antiga. Não é de se estranhar então essa minha obsessão em encontrar o equilíbrio entre o ontem, o hoje e o amanhã na minha cozinha. Bingo! É isso, o vazio é o que incomoda! Não digo que a cozinha molecular não tenha lá o seu encanto. Afinal, descobertas são sempre instigantes. É o vazio que ela deixa, mesmo antes de experimentá-la, o que na realidade me incomoda.

Posso respeitar, assim como respeito as qualidades do meu novo monitor. Posso até não ter o direito de duvidar da sua eficácia, visto que tantos experimentam, vibram e enaltecem esse tipo de cozinha. O que eu não consigo é conviver com a sensação de vazio que essas cozinhas de hoje em dia causam. Todas repletas de áreas de trabalho ultra-modernas, placas de indução de todos os tipos, cores e tamanhos e aparelhos de alta performance, mas ao mesmo tempo tão carentes em algo tão básico para uma cozinha de alma: o fogo!

Quando se começa a acreditar que uma coisa chamada nitrogênio líquido tem o poder de tirar de algo tão poético e poderoso, quanto o fogo, o prazer de cumprir o seu papel, tão fundamental e histórico, na cozinha, pode estar na hora de voltar correndo para o ontem e esperar passar um tempinho antes de começar a pensar no amanhã!

Até!
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